No extremo oeste do Amazonas, onde o Brasil literalmente acaba no meio da floresta, fica Tabatinga: uma cidade que compartilha ruas, comércio e sotaque com a Colômbia e tem o Peru do outro lado do rio. Aqui, a fronteira não é uma linha no mapa. É uma avenida.
A avenida onde dois países se tocam sem portão
Poucos lugares no mundo têm uma fronteira tão porosa quanto a que une Tabatinga ao município colombiano de Letícia. A Avenida da Amizade, que começa no aeroporto brasileiro, atravessa os dois países como um corredor urbano contínuo. Não há cancela, não há muro e, para moradores e turistas em visita de curto prazo, não há exigência de passaporte.
Quem chega a Tabatinga por avião já nota a fronteira antes de sair do aeroporto: motocicletas com placa colombiana estacionam no pátio externo. Do lado de lá, táxis novos de Letícia contrastam com os carros mais velhos da frota brasileira. São dois países, mas a paisagem urbana é uma só. Pesquisadores da área de geografia humana descrevem o conjunto como um subespaço de fluidez territorial: uma cidade que na prática ignora a linha divisória para funcionar no dia a dia.
A fronteira Brasil-Colômbia nessa extensão tem 1.644 km. Ao longo de todo esse trecho, existem apenas quatro pontos de contato. Tabatinga e Letícia formam o único com dinâmica urbana de alguma intensidade.

A cidade colombiana que nasceu peruana e só virou colombiana numa guerra
A história de Letícia é improvável. Fundada em 25 de abril de 1867 como porto fluvial peruano, a cidade levou o nome de San Antonio por ordem do capitão peruano Benigno Bustamante, então governador de Loreto. Ainda naquele ano, um engenheiro rebatizou o porto de Letícia, em homenagem a uma jovem de Iquitos chamada Leticia Smith.
A cidade só passou à soberania colombiana em 1929, com o Tratado Salomón-Lozano. A transição não foi pacífica: em 1932, um grupo de civis peruanos ocupou Letícia pela força, desencadeando a chamada Guerra Colombo-Peruana, que durou quase dois anos. O conflito foi resolvido pela mediação da Sociedade das Nações e pelo Protocolo do Rio de Janeiro, assinado em 1934, que confirmou o domínio colombiano. Letícia é hoje a única capital departamental da Colômbia localizada no hemisfério sul, e concentra cerca de 60% da população do Departamento do Amazonas colombiano.
Tabatinga, do lado brasileiro, tem origem igualmente militar. O Forte de São Francisco Xavier de Tabatinga foi instalado em 1766 para fiscalizar o tráfego de embarcações na fronteira com a Espanha. A palavra Tabatinga vem do tupi e significa barro branco, referência ao fundo esbranquiçado dos rios da região. O município só foi emancipado em 1983.
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Três moedas, dois idiomas e o portuñol amazônico
Num mercado de Letícia, o vendedor aceita real, peso colombiano e sol peruano sem pestanejar. Na mesma tarde, o comprador pode almoçar em território colombiano, comprar eletrônicos importados pelo Canal do Panamá a preço de free shop e voltar a pé para Tabatinga, onde jantar à beira do Solimões com tambaqui fresco.
O trânsito de línguas é igualmente livre. O português domina Tabatinga; o espanhol, Letícia. Mas a prática cotidiana produziu um terceiro código informal: o portuñol, mistura fluida das duas línguas que os moradores chamam pelo nome sem cerimônia. Desde 2005, um acordo bilateral permite que professores brasileiros ministrem língua portuguesa nas escolas de Letícia, e vice-versa. Pesquisadores da sociolinguística documentaram que, embora os moradores transitem entre os dois idiomas, cada comunidade mantém sua língua de identidade, usando a do vizinho como ferramenta de comércio e convívio, não como substituição.
O Peru entra nessa equação pela água. A vila de Santa Rosa de Yavarí fica na margem oposta do rio Amazonas, acessível de barco em poucos minutos. Os peruanos atravessam regularmente para vender produtos nos mercados de Tabatinga e Letícia. A tríplice fronteira soma, ao todo, mais de 100 mil habitantes distribuídos pelos três territórios nacionais.
Quem tem curiosidade sobre a Tríplice Fronteira, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal ArrumaMalaÊ_Oficial, que conta com mais de 96 mil visualizações, onde o apresentador mostra os segredos de Tabatinga, no Amazonas, e da vizinha Letícia, na Colômbia:
Sem estrada: avião ou dias de barco pelo Solimões
Tabatinga é uma das cidades brasileiras com mais de 70 mil habitantes que não tem acesso rodoviário ao restante do país. Não existe estrada que ligue o município ao sistema nacional de rodovias. Chegar aqui é, obrigatoriamente, voar ou subir o rio.
De avião, o trajeto até Manaus dura cerca de 1h50 a partir do Aeroporto Internacional de Tabatinga. De barco pelo rio Solimões, a mesma distância de aproximadamente 1.100 km consome em torno de dois dias e meio descendo o rio, e até seis dias subindo. Barcos lentos com redes penduradas no convés partem algumas vezes por semana; lanchas rápidas cobrem o trecho em cerca de 30 horas. A alimentação está incluída nas travessias de barco: café, almoço e jantar servidos à beira do rio, com floresta dos dois lados e botos rosados à vista.
Quem chega de Bogotá entra por Letícia, o único aeroporto internacional da região. A partir daí, atravessa a Avenida da Amizade a pé e está no Brasil. O Climatempo registra temperaturas entre 22°C e 34°C ao longo do ano, com chuvas intensas de novembro a maio e um período relativamente mais seco de junho a setembro.
Tabatinga vale a travessia até o fim da Amazônia
Poucas cidades brasileiras concentram tanto em tão pouco espaço: uma fronteira que se atravessa a pé, três idiomas sobrepostos, peixes amazônicos vendidos em pesos colombianos e uma história que passou por Peru, Colômbia e Brasil antes de encontrar seu equilíbrio improvável na selva.
Se você tem curiosidade de pisar em dois países na mesma caminhada e sentir o peso real de uma fronteira amazônica, Tabatinga é o destino que vale cada hora de avião ou cada dia de barco.
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