
A guerra atual entre Israel, Estados Unidos e Irã produziu imagens difíceis de ignorar: edifícios atingidos, bairros danificados, famílias deslocadas. É um cenário real, que impõe custo humano e material, sobretudo à população civil. Mas, quando os dados são analisados com atenção, surge um contraste decisivo: em 12 dias, em 2025, o Irã causou mais danos a Israel do que em mais de um mês do conflito atual.
Até 29 de março de 2026, Israel registrou 21.552 pedidos de compensação por danos à propriedade desde o início do conflito, em 28 de fevereiro. Na guerra dos 12 dias de 2025, esse número chegou a 53.409. A discrepância se torna ainda mais clara quando ajustada pelo tempo: o conflito atual acumula cerca de 718 pedidos por dia, enquanto o anterior ultrapassou 4.400 diários — uma intensidade mais de seis vezes maior. Em outras palavras, mesmo após um mês de ataques, o volume de danos permanece significativamente inferior ao observado em menos de duas semanas no ano anterior.
Essa diferença não é apenas quantitativa. Ela reflete também a natureza dos impactos. Em 2025, Israel enfrentou ataques com maior capacidade de colapso estrutural, que exigiram a demolição e reconstrução de edifícios inteiros. Já no cenário atual, predominam danos mais dispersos: carros destruídos, fachadas atingidas e múltiplos pontos de impacto em áreas urbanas. O efeito visual é intenso e, em muitos casos, mais impressionante, mas a incidência de destruição total de estruturas é menor.
Em um ambiente mediado por imagens rápidas e circulação instantânea, danos fragmentados em áreas densamente povoadas podem parecer mais devastadores do que são em termos estruturais e econômicos. A guerra também se trava no plano da percepção.
Há, porém, uma dimensão ainda mais relevante: a natureza dos alvos. Os ataques iranianos atingiram áreas civis e centros urbanos em Israel, ampliando o risco direto para a população. Israel, por sua vez, afirma concentrar suas operações em alvos militares e estratégicos. Essa distinção não é apenas operacional — ela é central no direito internacional humanitário, que estabelece a obrigação de diferenciar entre civis e combatentes e de evitar danos indiscriminados.
O padrão de armamento reforça essa leitura. O uso de munições de fragmentação, que dispersam submunições em áreas amplas, amplia o risco para civis, sobretudo em zonas urbanas densas. Ainda que possam produzir menos colapsos estruturais, esses sistemas aumentam o alcance do impacto e contribuem para a percepção de destruição generalizada.
Outro dado ajuda a compreender a diferença entre 2025 e 2026. Avaliações recentes da inteligência americana indicam que cerca de metade dos lançadores de mísseis iranianos ainda permanece intacta. À primeira vista, isso sugeriria uma capacidade preservada. Mas essa leitura é incompleta. Parte desses sistemas está hoje danificada, inacessível ou comprometida após semanas de ataques. Em termos práticos, isso significa que a capacidade nominal ainda existe — mas a capacidade efetiva de uso foi reduzida. Isso ajuda a explicar por que, mesmo mantendo um arsenal relevante, o Irã não conseguiu reproduzir o nível de destruição observado no conflito anterior.
Esse ponto se torna ainda mais evidente quando confrontado com a retórica oficial iraniana. Ao longo dos anos, o regime tem reiterado seu objetivo de eliminar o Estado de Israel. À luz dessa posição, a menor escala de destruição atual não pode ser interpretada como contenção deliberada. Se a intenção permanece máxima, mas o resultado diminui, o que muda não é o objetivo — é a capacidade de executá-lo.
Há ainda um elemento que escapa às estatísticas, mas ajuda a entender a percepção interna em Israel. Em diversos episódios recentes, mísseis atingiram áreas altamente sensíveis — incluindo regiões próximas à Cidade Velha de Jerusalém, um jardim de infância e centros urbanos densamente povoados — sem provocar mortes. Para muitos, dentro e fora de Israel, esses episódios são interpretados como sinais de proteção. Independentemente da leitura individual, o dado objetivo permanece: houve impactos diretos em áreas civis com um número de vítimas muito inferior ao que seria esperado diante do potencial destrutivo envolvido.
Ainda assim, apesar dos extensos sistemas de proteção — como abrigos antiaéreos, alertas em tempo real e mecanismos de interceptação —, uma parcela dos projéteis consegue ultrapassar as defesas. Quando isso ocorre, há destruição e perda de vidas entre israelenses de diferentes origens, incluindo judeus, árabes muçulmanos e cristãos. Foi o caso recente de um ataque em Haifa, cidade marcada pela convivência entre comunidades, que matou quatro membros de uma mesma família.
Nada disso torna a guerra leve. Não há nada de leve em cidades sob ataque. Mas há uma diferença clara entre sofrimento real e escala de devastação — e ignorar essa diferença distorce a compreensão do conflito.
Israel enfrenta uma guerra assimétrica, não apenas no campo militar, mas também no plano narrativo. De um lado, um adversário que declara intenções máximas e emprega meios que ampliam o risco para civis. De outro, um país que opera sob escrutínio constante e busca direcionar suas ações a alvos militares. Nesse contexto, a forma como a guerra é percebida pode se tornar tão determinante quanto os fatos no terreno.
A percepção de que Israel — e os Estados Unidos — estariam “perdendo” a guerra decorre, em grande medida, da força das imagens, não da análise dos resultados. Em termos estratégicos, o que se observa é o oposto: contenção de danos em escala significativamente menor do que em conflitos anteriores e sinais de erosão na capacidade efetiva do Irã de projetar força. A discrepância entre intenção declarada e impacto mensurável não indica sucesso operacional, mas limitação. Em guerra, não é a visibilidade da destruição que define vantagem, mas a capacidade de sustentá-la — e, nesse aspecto, os dados sugerem um desequilíbrio que não favorece Teerã.
Os números não minimizam o conflito. Eles o esclarecem. E o que revelam é um ponto essencial: o Irã continua sendo uma ameaça real, mas, ao menos por agora, enfrenta limites concretos para transformar essa ameaça na escala de destruição que declara buscar.

