A guerra, Trump e o risco de barbárie

Quando um líder com o peso político e simbólico de Donald Trump fala em “extermínio de uma civilização inteira”, não se trata de mais uma hipérbole eleitoral. Trata-se de um deslocamento perigoso da fronteira do aceitável. O que muda não é apenas o tom, é o campo do que passa a ser legitimamente dizível no centro do poder global.

Há, sim, um componente retórico nesse tipo de linguagem. O estilo direto, agressivo, por vezes deliberadamente provocativo, faz parte da construção política de Trump e de parte de seu entorno. O risco, porém, é quando essa retórica deixa de ser apenas forma e começa a moldar substância, contaminando decisões, alianças e percepções de risco.

É importante, no entanto, fazer uma distinção que evita simplificações perigosas. Nesse ponto, há concordância com uma afirmação de Marco Rubio: esta guerra não foi iniciada por Donald Trump. Suas raízes são muito anteriores, acumuladas ao longo de décadas de tensões políticas, religiosas e estratégicas. Ignorar isso empobrece a análise e transforma um problema estrutural em narrativa episódica. 

E é aqui que a análise precisa ganhar profundidade. Reduzir o conflito a uma dicotomia simplista seria um erro. Há fatores reais que tensionam o sistema: a postura ideológica do regime iraniano, frequentemente marcada por elementos religiosos, antiocidentais e, em alguns casos, explicitamente antissemitas, não pode ser ignorada. Isso não legitima a linguagem de extermínio, mas ajuda a explicar por que o conflito não nasce no vácuo.

A Europa, por sua vez, adota uma posição pragmaticamente agnóstica. Evita rupturas mais duras, preserva canais diplomáticos e tenta equilibrar valores com interesses energéticos e de segurança. Já os países árabes operam em uma ambiguidade calculada: condenam excessos em público, mas mantêm, nos bastidores, uma lógica de estabilidade regional e autopreservação de regimes.

Esse mosaico de posições revela um sistema internacional que não está alinhado, está tensionado. Do ponto de vista econômico, os efeitos são imediatos. O prêmio de risco geopolítico se amplia. O petróleo sobe não apenas por restrição de oferta, mas pela incerteza sobre até onde o conflito pode escalar. Fretes, fertilizantes, alimentos e cadeias logísticas entram em estado de alerta. O capital exige mais retorno para aceitar o mesmo risco e, em muitos casos, simplesmente se retrai.

Há, também, um efeito já visível e simbólico. O “mundo dourado” de Dubai e, de forma mais ampla, do Golfo, construído sobre fluxos maciços de capital e uma narrativa de estabilidade premium, começa a revelar uma fragilidade estrutural: está ao alcance direto de mísseis e drones iranianos. O que era percebido como porto seguro sofisticado passa a incorporar risco geopolítico explícito. Quando esse risco entra no pricing de ativos imobiliários de altíssimo padrão, o impacto deixa de ser regional, torna-se sistêmico.

Mas o ponto central não é o preço do barril. É a erosão da previsibilidade. Economias funcionam com base em confiança implícita: contratos serão respeitados, regras mínimas permanecerão válidas, conflitos terão limites. Quando a linguagem dominante passa a flertar com a eliminação do outro como solução, essa base invisível começa a ruir. Sem ela, investimento de longo prazo — infraestrutura, energia, tecnologia — deixa de ser decisão racional para se tornar aposta.

 

Para o Brasil, o impacto é estrutural

 

No plano diplomático, não há espaço confortável para neutralidade sem custo. Um país que aspira protagonismo precisa estabelecer linhas claras: não necessariamente escolher lados no conflito, mas definir o que é inaceitável. A normalização de discursos de extermínio é uma dessas linhas.

No plano econômico, a ambiguidade é evidente. O Brasil pode capturar ganhos de termos de troca com commodities mais caras, mas esse benefício é frágil. Se o risco global encarece o crédito, reduz investimento e fragmenta o comércio internacional, o saldo líquido tende a ser negativo.

No plano empresarial, a implicação é direta: o mundo deixou de ser linear. Cadeias de suprimento precisam ser redesenhadas, exposição cambial gerida ativamente e dependências críticas reduzidas. Diversificação deixa de ser estratégia ofensiva e passa a ser mecanismo de sobrevivência.

Mercados se adaptam a quase tudo. O que não conseguem precificar é a ausência de limites. Quando a linguagem de extermínio retorna ao centro da política global, o problema deixa de ser conjuntural. Não é mais sobre inflação ou juros. É sobre o tipo de ordem internacional que está sendo reconstruída e o risco de estarmos, silenciosamente, normalizando a barbárie.

*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group  

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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