O vilarejo de pescadores abandonado há 30 anos que a natureza transformou em labirinto verde

O vilarejo de pescadores abandonado há 30 anos que a natureza transformou em labirinto verde

A 65 km de Xangai, no extremo oriental do Arquipélago de Shengsi, a ilha de Shenghan guarda um dos cenários mais fotografados da China. Não é um templo nem uma montanha. É um vilarejo de pescadores que a natureza decidiu engolir depois que os moradores foram embora, e que hoje parece uma cidade pós-apocalíptica saída de um filme.

Uma ilha próspera que ficou isolada do próprio país

Houtouwan foi fundada nos anos 1950, quando a pesca abundante no Mar do Leste da China atraiu famílias inteiras para a encosta voltada ao norte de Shengshan. No auge, entre as décadas de 1980 e início dos anos 1990, o vilarejo concentrava cerca de 3.000 moradores e era conhecido localmente como “a Pequena Taiwan” por sua prosperidade, segundo relatos reunidos pelo National Geographic.

A virada começou quando a pesca artesanal de Houtouwan passou a perder competitividade frente às frotas industriais que operavam a partir da costa. A ilha era remota, as ligações com o continente eram precárias, e a escola local não oferecia o mesmo que as cidades do interior. Quem tinha filhos pequenos foi o primeiro a ir. Depois foram os mais jovens. Nos anos 1990, a saída se tornou um êxodo silencioso e gradual. Em 2002, o vilarejo foi oficialmente despovoado e incorporado a uma localidade vizinha.

O antigo vilarejo abandonado há 30 anos que foi completamente engolido pela natureza e transformado em 1 labirinto verde
Houtouwan é um vilarejo abandonado na ilha de Shengshan // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

A planta que selou cada janela e cada telhado

Sem moradores para roçar, podar ou limpar, a vegetação nativa agiu com a precisão que só o tempo permite. A espécie que dominou Houtouwan é a Parthenocissus tricuspidata, conhecida em inglês como Boston ivy e nativa do leste da Ásia, incluindo o norte e o leste da China. Trata-se de uma trepadeira decídua da família das videiras que pode atingir até 30 metros de altura e se agarra a superfícies de alvenaria por meio de ventosas adesivas nas pontas das gavinhas, conforme descreve o registro botânico da espécie.

Em Houtouwan, a combinação de umidade subtropical, encostas sombreadas e ausência humana criou condições ideais. Em duas décadas, a trepadeira cobriu janelas, portas, telhados e ruelas inteiras. Alguns cômodos permanecem com móveis e objetos pessoais exatamente onde foram deixados, como se os moradores tivessem simplesmente saído para comprar peixe e nunca voltado. Por fora, as paredes de concreto viraram paredes de folhas.

As fotos que colocaram um vilarejo esquecido no mapa do mundo

Por mais de uma década, Houtouwan existiu no anonimato. Em 2015, uma série de fotografias do vilarejo foi compartilhada nas redes sociais chinesas e tornou-se viral em questão de dias. As imagens, com casas inteiramente envoltas em verde e ruelas transformadas em túneis de folhagem, circularam pelo mundo inteiro. O impacto foi imediato e, para as autoridades locais, inesperado.

Em declaração recolhida pela CNN, o funcionário local Chen Bo afirmou em 2015 que Houtouwan não estava equipada para receber turistas e pediu que os visitantes preservassem a tranquilidade do lugar. A advertência chegou tarde: a procura já havia disparado. Em 2021, a ilha registrou 90.000 visitantes, gerando cerca de 3,3 milhões de yuans (aproximadamente 470.000 dólares) para Shengshan, segundo dados locais citados pela CNN.

O fenômeno global do abandono engolido pela natureza

Houtouwan não é um caso isolado. O arquipélago de Shengsi, com mais de 400 ilhotas, foi declarado a única área oficialmente reconhecida como Área Cênica Nacional entre os arquipélagos da China. Em toda a região, vilarejos foram esvaziados pelo mesmo processo que atingiu Houtouwan: jovens migrando para metrópoles como Xangai, pescarias que deixaram de ser rentáveis, escolas e hospitais inacessíveis.

O que diferencia Houtouwan é a fotogenia do resultado. A combinação de construções de concreto com a trepadeira, a névoa que frequentemente cobre a encosta voltada para o oceano e o silêncio denso do abandono criaram um cenário que fotógrafos e cineastas de todo o mundo passaram a perseguir. Exploradores urbanos que chegavam à ilha antes da abertura oficial descreveram uma trilha de 36 horas desde Xangai por ferries e conexões improváveis para alcançar o vilarejo.

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Como chegar e o que esperar ao desembarcar

Hoje, Houtouwan conta com uma infraestrutura turística mínima: uma plataforma de observação com ingresso de cerca de 3 dólares, trilhas delimitadas pela encosta com ingresso de aproximadamente 8 dólares, e sinais de advertência afastando visitantes dos edifícios em risco de colapso. Poucos moradores remanescentes vendem garrafas de água na entrada, o único produto comercializado no local.

A travessia a partir de Xangai leva entre cinco e seis horas, combinando ônibus, ferry até a Ilha de Gouqi e táxi pela ponte que conecta Gouqi a Shengshan. O melhor período é o verão, quando a trepadeira está no auge do seu verde. No inverno, as folhas caem e o concreto reaparece sob as gavinhas secas, revelando uma versão diferente e igualmente estranha do lugar.

A beleza improvável de uma partida sem data de volta

Houtouwan é uma resposta involuntária à pergunta que poucos se fazem: o que acontece com uma cidade quando ninguém mais está lá para mantê-la? A resposta, neste caso, é uma das mais belas do mundo. A natureza não destruiu o vilarejo. Ela o reescreveu.

Se você passar por Xangai e tiver dois dias sobrando, vale enfrentar a travessia até Shengshan para ver de perto o que a trepadeira fez com as casas de Houtouwan.

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