Proibido ser enterrado, 113 dias sem sol e ursos polares na porta: a vida 1.300 km acima do Círculo Polar

A 1.300 km do Polo Norte, encravada entre fiordes e geleiras no arquipélago norueguês de Svalbard, fica a cidade mais setentrional do planeta. Longyearbyen tem aeroporto, universidade, bares e um festival de jazz, mas também uma regra que desafia a lógica de qualquer outra cidade da Terra: quem morre ali não pode ser enterrado.

O permafrost que preserva corpos e proíbe sepultamentos

A história começa em 1918, quando onze mineiros morreram na gripe espanhola e foram enterrados no cemitério local. Décadas depois, na virada para os anos 1950, pesquisadores constataram o problema: os corpos não haviam se decomposto. O permafrost, a camada de solo permanentemente congelado que sustenta toda a cidade, havia preservado os tecidos com precisão desconcertante, e os vírus responsáveis pelas mortes ainda estavam presentes nos restos mortais, conforme registra a Wikipedia com base em documentação histórica.

O risco era concreto: qualquer degelo do permafrost poderia liberar patógenos ativos no ambiente. Em 1998, uma equipe de cientistas internacionais exumou sete dos mineiros para estudar amostras do vírus, confirmando os temores. A conclusão das autoridades foi prática: sepultamentos em Longyearbyen estão proibidos desde os anos 1950. Quem está gravemente doente é evacuado para o continente. Quem morre na cidade tem o corpo transportado à Noruega para enterro. Cinzas podem ser depositadas no cemitério, mas apenas com licença governamental. O cemitério local, onde há 44 pessoas enterradas, não recebe novos moradores há mais de sete décadas.

Longyearbyen brilha como a guardiã da humanidade ao abrigar o Cofre Global de Sementes nas entranhas da montanha // (imagem ilustrativa)

113 dias sem ver o sol nascer

Se a regra dos enterros parece incomum, o calendário de Longyearbyen é ainda mais radical. A cidade fica a 78° de latitude norte, o que significa que, entre 26 de outubro e 15 de fevereiro, o sol não aparece no horizonte por nenhum momento do dia, segundo dados do Visit Svalbard, o portal oficial de turismo do arquipélago. São 113 dias consecutivos de escuridão polar.

A noite polar de Longyearbyen é a mais longa de qualquer cidade habitada permanentemente da Europa. Tromsø, a cidade mais ao norte da Noruega continental, tem escuridão polar de apenas 49 dias. Em Longyearbyen, o pico da ausência de luz vai de meados de novembro ao fim de janeiro, quando nem mesmo o crepúsculo civil aparece ao meio-dia. Para compensar, o verão inverte a equação: o sol não se põe por 127 dias consecutivos, entre abril e agosto. Os moradores recebem o retorno do sol em março com um festival chamado Solfestuka, a Semana do Sol.

Longyearbyen destaca-se como o assentamento humano mais ao norte do mundo, onde a luz do sol desaparece por meses // (imagem ilustrativa)

Os ursos polares que exigem uma carabina para sair de casa

A fauna de Svalbard não é opcional para quem vive em Longyearbyen. O arquipélago abriga cerca de 300 ursos polares residentes permanentes e pode ter até cerca de mil indivíduos em trânsito ao longo do ano, conforme estimativas do Instituto Polar Norueguês. Em toda a região do Mar de Barents, a população total gira em torno de 3.000 animais.

Os ursos circulam pela cidade e arredores sem distinção de horário ou estação. Ao sair dos limites de Longyearbyen, qualquer pessoa, seja turista ou residente, é legalmente obrigada a carregar dispositivos de espanto e é fortemente aconselhada a portar arma de fogo como último recurso. O Sysselmesteren, o governador de Svalbard e autoridade máxima do arquipélago, fiscaliza o cumprimento dessas normas. Em 2020, um homem holandês foi morto por um urso polar em acampamento próximo à cidade. O animal foi abatido em seguida.

O cofre que guarda a herança alimentar da humanidade

A poucos metros acima da cidade, escavado a 130 m no interior da montanha Platåberget, fica um dos projetos mais ambiciosos já concebidos pelos governos do mundo. O Svalbard Global Seed Vault, o Cofre Global de Sementes de Svalbard, foi inaugurado em fevereiro de 2008 pelo governo norueguês em parceria com o Global Crop Diversity Trust e o Nordic Genetic Resource Centre.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em fevereiro de 2025 o cofre armazenava mais de 1,3 milhão de amostras de sementes representando mais de 6.200 espécies vegetais. A estrutura tem capacidade para até 4,5 milhões de amostras e foi projetada para resistir a terremotos, inundações, falhas de energia e até conflitos nucleares. O local foi escolhido exatamente por causa do permafrost: mesmo sem refrigeração artificial, a temperatura natural da rocha mantém as sementes em torno de minus 3°C a 6°C, abaixo do ponto de congelamento.

O cofre foi utilizado pela primeira vez em 2015, quando o banco de sementes do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola nas Áreas Áridas (ICARDA), com sede em Alepo, na Síria, perdeu acesso às suas instalações em razão da guerra civil. As sementes recuperadas permitiram ao ICARDA recompor sua coleção em laboratórios no Líbano e em Marrocos.

Uma cidade que não pertence a ninguém e pertence a todos

Longyearbyen nasceu como acampamento de mineração de carvão em 1906, fundado pelo empresário americano John Munro Longyear. O Tratado de Svalbard de 1920 reconheceu a soberania norueguesa sobre o arquipélago, mas garantiu a 46 nações o direito de residir, trabalhar e explorar recursos no local, sem necessidade de visto. O carvão foi extraído até 2017. Hoje a cidade vive de ciência e turismo.

Seus atuais 2.400 moradores vêm de mais de 53 países. Há um aeroporto conectado à Noruega continental, o Centro Universitário de Svalbard (UNIS) dedicado à pesquisa ártica, a única cervejaria comercial do mundo acima do Círculo Polar Ártico e um festival de jazz no meio da escuridão polar chamado Polarjazz. Toda casa tem armário para deixar a carabina.

O lugar mais extremo que ainda se chama cidade

Longyearbyen existe na fronteira entre o que os humanos conseguem construir e o que a natureza impõe sem negociação. Aqui, o solo não deixa enterrar os mortos, o sol desaparece por meses, e o maior predador terrestre do planeta pode aparecer na saída de qualquer trilha.

Chegar a Longyearbyen exige voo de cerca de três horas a partir de Oslo. Ficar é outra história: poucos lugares no planeta testam tanto o que significa escolher viver em algum lugar.

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