Golpe do ‘falso gerente’ de banco mira contas empresariais e causa prejuízos de mais de R$ 80 mil em SP; saiba como se proteger


Maria Claudia Castelo Branco, que foi vítima de golpe do falso gerente de banco
Reprodução
Criminosos têm aplicado um novo tipo de golpe: fingem ser gerentes ou funcionários de banco para enganar clientes e desviar dinheiro de contas empresariais. Ao menos três vítimas, clientes do banco Bradesco, relatam prejuízos em São Paulo, com valores que, somados, passam de R$ 80 mil.
Nos casos, o contato começa por WhatsApp ou telefone, com linguagem profissional e uso de informações sigilosas que aumentam a credibilidade, como o saldo bancário. Em seguida, os golpistas orientam as vítimas a acessar links específicos, escanear QR Codes ou inserir códigos dentro do aplicativo do banco — o que permite a realização de transferências e a contratação de crédito.
Os três episódios relatados ao g1 foram registrados em boletins de ocorrência como estelionato na capital, nos bairros de Vila Buarque e Jardins, e em Guarulhos. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que, em casos como este, as vítimas precisam fazer uma representação após abrirem o B.O. para dar continuidade às investigações (leia abaixo).
Uma das vítimas é a escritora e jornalista Claudia Castelo Branco, de 40 anos, moradora da Vila Buarque, no Centro da capital. Ela afirma ter perdido R$ 20,5 mil após ser orientada por supostos funcionários do banco a configurar o aplicativo da instituição na última segunda-feira (6).
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Segundo ela, o contato começou por mensagens de um homem que se apresentou como sendo o novo gerente da conta. Sem desconfiar do criminoso, a escritora respondeu e pediu ajuda para configurar o aplicativo do banco após uma troca de celular. O suposto gerente afirmou que poderia resolver o problema remotamente e a orientou a entrar em contato com um “assistente” dele.
Em seguida, outro suposto funcionário conduziu uma ligação de cerca de 40 minutos, pedindo que ela acessasse um site e escaneasse um QR Code apresentado como sendo uma etapa de segurança.
Horas depois, a vítima percebeu duas transferências via PIX, uma de R$ 7 mil e outra de R$ 13,5 mil. Os valores foram enviados para uma empresa identificada como “TODO CARTÕES LTDA”.
Parte do dinheiro chegou a ser rastreada e está em processo de disputa com o banco, segundo ela contou ao g1, mas até a última atualização desta reportagem nenhum valor havia sido recuperado.
“Roubaram o dinheiro do livro que passei anos escrevendo”, lamentou a escritora. “Quero meu dinheiro e quero alertar todo mundo. Não tem que ter vergonha, temos que ir atrás do nosso direito.”
Ao procurar a gerente oficial da conta, indicada no aplicativo do banco, a escritora foi orientada a encerrar a conta por segurança. “Ela disse que possivelmente eles estavam no controle do aplicativo”, afirmou.
Ela destaca que não costuma movimentar valores altos por PIX, o que, segundo ela, poderia ter levantado alertas de segurança por parte do banco.
Em nota, o Bradesco afirmou que não comenta casos que envolvem clientes em “razão do sigilo bancário”. Disse ainda que, de forma geral, os golpes envolvendo falso funcionário e falsa central de atendimento têm aumentado (leia abaixo).
Falsa gerente entrou em contato pelo WhatsApp da vítima dias antes do golpe.
Arquivo pessoal
Prejuízo de R$ 18 mil
Outro caso semelhante ocorreu em Guarulhos, na Grande São Paulo, com a empresária Ana Maria Ferreira Soares, de 62 anos, que teve a conta jurídica do Bradesco usada por criminosos após contato com um falso funcionário.
De acordo com a família, o golpista alegou a necessidade de uma atualização cadastral e enviou um link com aparência idêntica à página do banco. Após uma primeira abordagem sem movimentações, ele voltou semanas depois e pediu que a vítima digitasse códigos e escaneasse QR Codes.
Na sequência, foram feitos resgates de valores e contratação de empréstimo. O aplicativo do banco apresentava instabilidade alguns dias antes do golpe, segundo a família.
O prejuízo foi de cerca de R$ 18 mil — sendo parte referente a um empréstimo feito sem autorização. O caso foi registrado no 2º DP de Guarulhos como estelionato em 23 de janeiro deste ano.
Segundo a família, o banco negou o ressarcimento sob a justificativa de que a cliente forneceu as informações aos criminosos. A vítima afirmou que está entrando na Justiça com auxílio de um advogado para tentar recuperar os valores.
Golpistas se passaram por gerentes do Bradesco em contato com vítimas pelo WhatsApp.
Reprodução
Fraude
Um terceiro caso obtido pelo g1 é o da psicóloga Deborah Carceles, de 67 anos. Ela afirma ter tido prejuízo superior a R$ 50 mil após um golpe no final de março.
Segundo ela, o golpista se apresentou como gerente da conta e, dias depois, passou a insistir na realização de uma atualização cadastral, enviando inclusive uma suposta comunicação da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).
Desconfiada, a vítima tentou resolver a situação pelos canais oficiais, mas afirmou que enfrentou falhas no aplicativo e dificuldade de contato com a agência.
“Eu tentei fazer pelo aplicativo, mas não concluía. Também liguei várias vezes e ninguém atendia”, disse.
Deborah escreveu carta para informar ocorrido ao Bradesco.
Arquivo pessoal
Na sequência, acabou seguindo as orientações do suposto funcionário. Segundo o relato, foram feitos empréstimos do tipo capital de giro e três transferências via PIX, mesmo sem histórico desse tipo de operação na conta.
🔎 Capital de giro é um tipo de empréstimo oferecido pelos bancos para empresas usarem no dia a dia, como em pagamento a fornecedores, funcionários e contas básicas do negócio. Na prática, o banco libera um valor para a empresa e cobra juros pelo uso desse dinheiro, com pagamento parcelado.
“Eu nunca usei capital de giro em mais de dez anos de conta. De repente fizeram um empréstimo e três PIX que somam mais de R$ 50 mil”, afirmou.
O Bradesco afirmou à psicóloga que “a transação contestata foi autorizada mediante o uso de credenciais válidas”, que tentou recuperar o dinheiro, mas não teve êxito, e que vai monitorar a conta favorecida pelo prazo de 90 dias.
A vítima registrou um boletim de ocorrência e afirmou que já ingressou com ação judicial contra o banco.
Como se proteger
O advogado Marcelo Frullani, especializado em Direito e Tecnologia da Informação e Direito Autoral, explica que os golpes têm se tornado cada vez mais sofisticados e convincentes.
“Hoje em dia, os criminosos criam fraudes cada vez mais elaboradas e conseguem convencer as pessoas de que são funcionários do banco. Já vi casos em que foi utilizado inclusive um telefone que realmente pertencia à instituição financeira”, afirma.
De acordo com ele, a principal medida de prevenção é desconfiar de contatos recebidos por telefone ou aplicativos de mensagens.
“A orientação é jamais confiar em mensagens de WhatsApp ou ligações de pessoas que se dizem gerentes do banco. Sempre que houver qualquer solicitação, o cliente deve entrar em contato com os canais oficiais da instituição antes de tomar qualquer providência”, explica.
O advogado também alerta para o risco de links e páginas falsas.
“Muitas vezes, os criminosos criam sites que simulam os ambientes oficiais dos bancos. Por isso, é fundamental desconfiar de links enviados por terceiros e nunca escanear QR Codes sem confirmação da autenticidade.”
O que fazer se cair em um golpe
Frullani orienta que a vítima registre imediatamente um boletim de ocorrência e comunique o banco para tentar reduzir os prejuízos. Segundo ele, as instituições financeiras podem ser responsabilizadas.
“A responsabilidade dos bancos é objetiva. Isso significa que independe de culpa. Para se eximir, a instituição precisa provar que houve culpa exclusiva da vítima.”
Registrar o boletim de ocorrência é o primeiro passo, mas não garante, por si só, a abertura imediata de um inquérito policial. Em casos de golpe, a polícia pode instaurar uma investigação para tentar identificar os responsáveis pelo crime — o que depende de análise do caso e de elementos como rastreamento de contas e transferências.
O especialista ressalta que, em caso de negativa de ressarcimento por parte do banco, o cliente pode recorrer à Justiça.
“Muitas vezes é necessário ingressar com ação judicial para obter a devolução dos valores. Também é possível solicitar judicialmente os registros de acesso, como os endereços de IP, conforme previsto no Marco Civil da Internet.”
De acordo com o advogado, essas informações podem comprovar acessos indevidos às contas. “Esses dados permitem identificar se houve invasão por terceiros, o que pode caracterizar falha de segurança do banco.”
Ele acrescenta que transações fora do padrão do cliente também podem indicar vulnerabilidades. “Quando uma operação foge do perfil do consumidor, o banco deveria utilizar mecanismos tecnológicos para identificar e bloquear a fraude.”
O que diz o Bradesco
Em nota, o Bradesco afirmou que não comenta casos que envolvam clientes em razão do sigilo bancário e que, de forma geral, os golpes envolvendo falso funcionário e falsa central de atendimento têm crescido.
“O Banco mantém comunicação ativa com seus clientes, por meio de campanhas e alertas nos canais digitais com orientações de prevenção. O Bradesco reforça que não realiza ligações solicitando senhas, chaves de segurança, instalação de aplicativos, acesso remoto ao aparelho ou autorização de transações, e disponibiliza orientações de segurança em seus canais oficiais.”
Adicionar aos favoritos o Link permanente.