O Glaciar Thwaites, com 120 km de largura e dimensões comparáveis ao território da Grã-Bretanha, derrete por baixo, não por cima. Para conter o processo, pesquisadores propõem o que pode ser a maior intervenção de engenharia oceânica já concebida: uma cortina submarina flexível de até 80 km ancorada ao leito do oceano a 650 metros de profundidade, projetada para bloquear a corrente de água quente que corrói a base do gelo.
Por que o Glaciar Thwaites é chamado de “Glaciar do Juízo Final”?
O Thwaites não derrete pela superfície como a maioria das pessoas imagina. O principal mecanismo de perda de massa é a infiltração de Água Circumpolar Profunda Modificada (CDW), uma corrente oceânica densa que percorre o fundo do Mar de Amundsen e penetra sob as plataformas de gelo flutuantes, corroendo a base do glaciar a partir de baixo.
Esse processo reduz o efeito de apoio que as plataformas exercem sobre o gelo continental, acelerando o fluxo de gelo para o oceano. Atualmente, o Thwaites é responsável por cerca de 4% de toda a elevação anual global do nível do mar. Se colapsar completamente, pode contribuir com até 65 centímetros de elevação dos oceanos, além de atuar como uma “rolha” que retém outros glaciares, o que poderia levar a um aumento total de mais de 3 metros no nível do mar.
A BBC News, com mais de 19,6 milhões de inscritos, acompanhou de perto a missão científica de pesquisadores britânicos e sul-coreanos que perfuram o Thwaites para entender o ritmo do derretimento. O vídeo, com mais de 24.655 visualizações, traz o relato do editor de clima da BBC, Justin Rowlatt, um dos poucos jornalistas a visitar o local:
Como funciona a cortina submarina proposta para proteger o glaciar?
Em março de 2023, os pesquisadores Michael Wolovick (Alfred Wegener Institute) e John Moore (Arctic Center, Universidade de Lapônia) publicaram no periódico PNAS Nexus o estudo sobre barreiras submarinas flexíveis no Mar de Amundsen. A proposta não é um muro rígido, mas painéis modulares flexíveis e flutuantes, ancorados ao leito oceânico e mantidos eretos pela própria flutuabilidade.
A estrutura seria capaz de se dobrar ao impacto de icebergs sem ruptura total, e o conceito não parte do zero: a tecnologia já existe na forma de cortinas de controle de temperatura utilizadas em reservatórios hidrelétricos estratificados ao redor do mundo. A novidade está na escala e na profundidade de aplicação.
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Quais são as quatro rotas candidatas e suas dimensões?
O estudo avalia quatro rotas no Mar de Amundsen com especificações distintas. O ponto de maior custo-benefício identificado pelos pesquisadores não é a barreira completa de 80 km, mas uma cortina inicial de apenas 4,3 km no canal T2, o principal corredor de entrada da CDW rumo à parte mais vulnerável do Glaciar Thwaites Ocidental, a 548 metros de profundidade. Veja as quatro opções avaliadas:
| Rota | Extensão | Altura média | Profundidade máxima |
|---|---|---|---|
| T2 (início recomendado) | 4,3 km | 130 m | 788 m |
| IB (Baía Interior) | 35 km | 127 m | 971 m |
| T3 | 50 km | 121 m | 783 m |
| OB (Baía Externa) | 82 km | 79 m | 679 m |
A rota OB é a mais abrangente e protegeria todos os principais glaciares do Mar de Amundsen, incluindo o Pine Island Glacier e o Crosson. É também a origem da cifra de 80 km frequentemente citada na mídia.

Quanto custaria construir uma barreira submarina dessa escala?
O custo estimado pelo Seabed Curtain Project para uma cortina de 80 km gira em torno de US$ 40 a 80 bilhões ao longo de uma década de construção, acrescidos de US$ 1 a 2 bilhões anuais de manutenção. Os próprios autores consideram esses valores competitivos em relação a outras formas de geoengenharia, como a injeção de aerossóis estratosféricos.
Antes de qualquer piloto em escala real, seriam necessários anos de modelagem oceânica de alta resolução, testes de materiais e avaliação de impacto ambiental sob o marco do Tratado da Antártica. Os pesquisadores são explícitos: não advogam pela implantação imediata do projeto.

O que ainda precisa ser resolvido antes de qualquer construção?
A lista de desafios técnicos e regulatórios é extensa. Veja os principais obstáculos que precisam ser superados antes de qualquer obra no fundo do Mar de Amundsen:
- Modelagem oceânica de alta resolução para prever o comportamento das correntes após a instalação da barreira.
- Testes de materiais capazes de resistir à pressão e às temperaturas extremas a centenas de metros de profundidade no oceano Antártico.
- Experimentos em tanque para simular a interação entre a cortina flexível e o impacto de icebergs em movimento.
- Avaliação de impacto ambiental sob as regras do Tratado da Antártica, que regula qualquer intervenção humana no continente gelado.
- Desenvolvimento de logística de construção em uma das regiões mais remotas e inóspitas do planeta.
Uma ideia radical diante de um problema sem precedentes
O estudo publicado no PNAS Nexus não é uma promessa de solução, é um mapa de possibilidades. A cortina submarina pode nunca sair do papel, ou pode se tornar o maior projeto de engenharia ambiental da história humana.
O que os dados já deixam claro é que o Glaciar Thwaites não vai esperar. Com 65 centímetros de elevação potencial do nível do mar em jogo, a pergunta que os pesquisadores fazem não é se vale a pena tentar, mas se ainda há tempo para isso.
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