Os buracos negros mais vorazes do universo estão passando fome e a ciência finalmente descobriu o motivo

Um levantamento astronômico envolvendo 1,3 milhão de galáxias e 8.000 buracos negros supermassivos confirmou o que os cientistas suspeitavam há anos: esses gigantes cósmicos não estão apenas crescendo mais devagar, estão consumindo matéria a um ritmo 22 vezes menor do que faziam há 10 bilhões de anos. A era de ouro dos buracos negros vorazes ficou no passado.

O que o maior levantamento de buracos negros da história revelou?

A pesquisa foi publicada em 17 de dezembro de 2025 no periódico The Astrophysical Journal, liderada por Fan Zou (Universidade de Michigan) e Neil Brandt (Penn State University). Para medir como o crescimento dos buracos negros evoluiu ao longo do tempo cósmico, a equipe combinou dados de nove levantamentos extragalácticos dispostos em estrutura de “bolo de casamento”, misturando varreduras rasas de áreas extensas com observações de “feixe de lápis” de regiões menores.

Os telescópios envolvidos incluem três dos mais avançados instrumentos de raios-X em operação: o Chandra (NASA), o XMM-Newton (ESA) e o eROSITA, de origem germano-russa. Juntos, eles permitiram mapear a atividade de 8.000 buracos negros supermassivos ao longo dos 75% finais da história cósmica.

A era de ouro dos buracos negros vorazes ficou no passado

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Por que os buracos negros estão consumindo menos matéria?

Os pesquisadores avaliaram três hipóteses: seriam os buracos negros atuais simplesmente menores? Haveria menos deles ativos ao mesmo tempo? Ou cada um individualmente estaria consumindo menos? A resposta foi inequívoca: cada buraco negro está comendo muito mais devagar, e o motivo é a escassez de gás frio nos centros das galáxias.

Esse gás era abundante durante o chamado “meio-dia cósmico” (cosmic noon), o período de pico de formação estelar que ocorreu quando o universo tinha menos de um quarto de sua idade atual. Desde então, o combustível foi secando progressivamente e os buracos negros supermassivos foram perdendo sua fonte de alimentação.

A resposta foi inequívoca: cada buraco negro está comendo muito mais devagar, e o motivo é a escassez de gás frio nos centros das galáxias

O que aconteceu com o gás que alimentava esses gigantes?

O gás frio está sendo consumido por duas forças antes mesmo de chegar aos buracos negros: a formação de novas estrelas nas galáxias hospedeiras e os ventos galácticos, jatos de partículas e radiação expelidos pelos próprios buracos negros em períodos de atividade intensa, que varrem o gás para fora das regiões centrais.

Com o envelhecimento das galáxias, também diminuíram as colisões e fusões galácticas que antes empurravam grandes quantidades de matéria para os centros. O resultado é que as refeições fartas deram lugar a ocasionais petiscos: estrelas destroçadas que se aproximam demais ou pequenas nuvens de gás errantes. Segundo o Live Science, o estudo representa o maior esforço já realizado para entender por que os quasares foram se apagando progressivamente.

O gás frio está sendo consumido por duas forças antes mesmo de chegar aos buracos negros

O buraco negro de 36 bilhões de massas solares está completamente dormente

O contexto se torna ainda mais intrigante com uma descoberta paralela: em agosto de 2025, astrônomos identificaram um buraco negro ultramassivo com massa estimada em 36 bilhões de massas solares, mais de 10.000 vezes a massa do buraco negro central da Via Láctea. Apesar do tamanho colossal, ele está completamente dormente, sem emitir radiação ativa detectável.

Conforme reportado pela Forbes, o achado sugere que mesmo os maiores motores gravitacionais do universo podem entrar em estado de inatividade prolongada quando privados de combustível suficiente. É como um motor de avião parado em solo: todo o potencial, nenhuma ignição.

O canal BBC, com mais de 15,4 milhões de inscritos, publicou um vídeo narrado pelo Professor Brian Cox que explica a formação e a natureza de Sagitário A*, o buraco negro supermassivo no centro da nossa galáxia. O conteúdo conecta diretamente o que o novo estudo descobriu com o que acontece bem aqui na Via Láctea:

O que esse estudo significa para o Sagitário A* e a Via Láctea?

Para a nossa galáxia, a conclusão é direta: o Sagitário A*, com cerca de 4 milhões de massas solares, já vive há bilhões de anos em estado de dormência pelos mesmos motivos identificados no estudo. Ele cresceu através de dois processos principais ao longo de bilhões de anos:

  • Consumo contínuo de estrelas e nuvens de plasma que se aproximaram demais de sua atração gravitacional.
  • Fusões com outros buracos negros, que permitiram ganhos significativos de massa ao longo da história cósmica.
  • Redução progressiva do gás frio disponível no centro da Via Láctea, que foi sendo consumido pela formação estelar e expulso pelos próprios ventos galácticos.

O resultado é que o Sagitário A* deve permanecer em dormência por trilhões de anos, a menos que uma fusão galáctica futura empurre novo combustível para o centro da Via Láctea.

O resultado é que o Sagitário A* deve permanecer em dormência por trilhões de anos, a menos que uma fusão galáctica futura empurre novo combustível para o centro da Via Láctea

Os gigantes cósmicos que sobrevivem com migalhas

O estudo cobre os 75% finais da história cósmica e representa a evidência mais robusta já reunida de que o universo está, lentamente, desligando seus motores mais poderosos. Os buracos negros supermassivos que um dia iluminaram o cosmos como quasares agora vivem na penumbra, alimentados apenas pelo que sobra.

A ironia cósmica é que foram os próprios buracos negros que contribuíram para seu estado atual: ao expelir ventos galácticos durante os períodos de máxima atividade, eles ajudaram a varrer o gás que um dia os alimentaria. O universo envelhece, e seus maiores predadores envelhecem com ele.

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