Pesquisadores encontram a 3.000 metros de profundidade no Pacífico uma “estrada de tijolos amarelos” com 145 milhões de anos

A estrada de tijolos amarelos não existe só no cinema. Em abril de 2022, pesquisadores a bordo do navio de exploração E/V Nautilus se depararam com uma formação rochosa no fundo do oceano Pacífico que imita, com fidelidade visual notável, os tijolos dourados do clássico O Mágico de Oz, a 3.000 metros de profundidade e com aproximadamente 145 milhões de anos de existência.

Onde fica a “estrada de tijolos amarelos” no fundo do oceano Pacífico?

A formação está localizada no cume do Monte Submarino Nootka, parte da Cordilheira Liliʻuokalani, dentro do Monumento Marinho Nacional Papahānaumokuākea (PMNM), ao norte das Ilhas Havaianas.

O PMNM é uma das maiores áreas de conservação marinha do mundo, maior do que todos os parques nacionais dos Estados Unidos somados. Apesar da dimensão, apenas cerca de 3% do seu fundo marinho foi explorado visualmente até hoje, tornando cada expedição ali uma abertura para o desconhecido.

A formação está localizada no cume do Monte Submarino Nootka, parte da Cordilheira Liliʻuokalani

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Como a expedição chegou até essa formação no fundo do oceano?

A missão que revelou a formação foi chamada Luʻuaeaahikiikekumu e representou o primeiro levantamento visual da cadeia de montes submarinos Liliʻuokalani. Ela foi viabilizada por um mapeamento sonar realizado em 2021, que identificou as regiões prioritárias para a exploração seguinte.

A reação da equipe ao avistar a formação foi transmitida ao vivo e capturou a surpresa genuína dos pesquisadores. “Isso é o caminho para a Atlântida”, disse um deles. Outro respondeu imediatamente: “A estrada de tijolos amarelos?”. O momento tornou-se um dos registros mais comentados da expedição.

O canal EVNautilus, com mais de 669 mil inscritos no YouTube, publicou o vídeo completo da descoberta, que acumula mais de 5,1 milhões de visualizações. As imagens mostram a sequência de coleta de amostras e o exato instante em que a equipe avista a “estrada” no leito submarino:

O que é, de fato, a estrada de tijolos amarelos encontrada no Pacífico?

A formação não tem nada de artificial. Trata-se de um fluxo fraturado de rocha hialoclastita, um tipo de rocha vulcânica originada em erupções de alta energia. Quando fragmentos de lava se resfriam rapidamente ao entrar em contato com a água, eles se depositam no fundo do mar, formando camadas densas e quebradiças.

As fraturas em ângulo reto que criam o efeito visual de tijolos resultam do estresse provocado por ciclos repetidos de aquecimento e resfriamento em múltiplas erupções sucessivas nessa margem. Os pesquisadores descreveram a superfície ao vivo como uma “crosta assada” que parecia poder ser descascada com as mãos.

Além da “estrada”, a equipe coletou amostras de basaltos cobertos por crostas de ferromanganês em diferentes profundidades e pedaços de pedra-pomes com aparência esponjosa, materiais que alimentam estudos sobre comunidades microbianas que habitam as superfícies rochosas desses montes.

Quando fragmentos de lava se resfriam rapidamente ao entrar em contato com a água, eles se depositam no fundo do mar, formando camadas densas e quebradiças

Qual é a idade geológica da cordilheira Liliʻuokalani?

Os montes submarinos da cordilheira Liliʻuokalani pertencem ao período Cretáceo, com idade estimada entre 66 e 145 milhões de anos. Para ter uma referência: os dinossauros não avianos se extinguiram há cerca de 66 milhões de anos, ou seja, parte dessas formações é anterior ao fim do Mesozoico.

As crostas de ferromanganês que revestem os basaltos crescem na ordem de poucos milímetros por milhão de anos, o que permite aos cientistas rastrear variações químicas do oceano ao longo de eras geológicas. Cada amostra coletada é, na prática, um arquivo geológico de alto valor.

A tabela abaixo reúne os principais dados técnicos da formação e do contexto em que foi encontrada, para facilitar a leitura comparativa das informações da expedição:

Característica Dado
Profundidade da formação Aproximadamente 3.000 metros
Idade geológica estimada Entre 66 e 145 milhões de anos (Cretáceo)
Tipo de rocha Hialoclastita fraturada
Localização Monte Submarino Nootka, Cordilheira Liliʻuokalani
Área protegida Monumento Marinho Nacional Papahānaumokuākea (PMNM)
Ano da descoberta visual 2022 (expedição Luʻuaeaahikiikekumu)

Quanto do fundo do oceano profundo a humanidade já explorou visualmente?

Segundo levantamento publicado em 2025, conduzido pela Ocean Discovery League, pela Scripps Institution of Oceanography e pela Universidade de Boston, em 67 anos de mergulhos profundos registrados, a humanidade explorou visualmente entre 0,0006% e 0,001% do fundo marinho profundo global.

O limite superior dessa estimativa representa apenas 3.823 km² de território mapeado visualmente, área ligeiramente maior que o estado americano de Rhode Island. Além disso, 65% de todas as observações de fundo marinho profundo estão concentradas nas águas dos Estados Unidos, Japão e Nova Zelândia, tornando o conjunto de dados potencialmente não representativo da biodiversidade global.

A estrada de tijolos amarelos não existe só no cinema

Por que formações como essa importam para a ciência marinha?

Os montes submarinos antigos funcionam como ilhas de biodiversidade no fundo do oceano, concentrando comunidades microbianas únicas nas suas superfícies rochosas e nas crostas minerais que as recobrem. Entender como essas comunidades variam de profundidade para profundidade e de região para região fornece dados de base para estratégias de conservação e gestão marinha.

A expedição Luʻuaeaahikiikekumu produziu quatro frentes de investigação científica que seguem sendo analisadas pelos pesquisadores envolvidos:

  • Comunidades microbianas vivem dentro das crostas de ferromanganês e dependem das características químicas específicas de cada monte submarino
  • Variações regionais nas crostas revelam diferenças na composição e oxigenação das bacias oceânicas ao longo do tempo geológico
  • Pedra-pomes coletada na expedição pode indicar atividade vulcânica histórica na cadeia, complementando o mapeamento sonar de 2021
  • Dados de linha de base sobre essas formações são necessários para avaliar impactos de futuras atividades humanas, incluindo mineração de fundo oceânico

A estrada de tijolos amarelos é um recorte do quanto o oceano ainda guarda

Uma formação com 145 milhões de anos que remete a um filme do século XX só foi vista pela primeira vez em 2022. Isso resume, com precisão, o estado atual do conhecimento humano sobre o fundo do oceano profundo.

Enquanto o espaço recebe missões bilionárias e câmeras em tempo real, mais de 99,99% do leito marinho profundo permanece fora do alcance visual da ciência. A “estrada de tijolos amarelos” não é uma curiosidade isolada; é um recorte do quanto ainda resta por mapear, nomear e entender nas profundezas do planeta.

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