Mais de 300 mil pessoas vivem em Yakutsk, a capital da República de Sakha, localizada no extremo leste da Rússia. A cidade detém o título de maior aglomeração urbana do planeta que foi inteiramente construída sobre o permafrost contínuo, uma camada de solo que se mantém congelada ao longo de todo o ano. Para que o calor das edificações não aqueça o chão e cause o afundamento na terra que descongela, todos os prédios da cidade são erguidos sobre estacas de concreto, ficando literalmente suspensos no ar.
A razão pela qual uma cidade inteira precisa ser erguida do chão
O permafrost que existe sob Yakutsk atinge profundidades que variam de 250 a 450 metros. Durante o curto verão, apenas a camada mais superficial do solo, que recebe o nome de “camada ativa”, descongela até uma profundidade de 3 metros, transformando-se em uma lama bastante instável. Se uma construção fosse apoiada diretamente sobre o solo, o calor que é gerado pelo aquecimento interno do prédio derreteria o permafrost que está sob sua fundação, o que provocaria afundamentos irregulares e, muito provavelmente, o colapso de toda a estrutura.
A solução encontrada para esse problema é drástica. Todas as construções da cidade são levantadas sobre estacas de concreto que são cravadas a uma profundidade mínima de 15 metros, uma técnica que segue as recomendações do Instituto Melnikov de Permafrost, o único centro de pesquisa do gênero em todo o mundo, que foi fundado em Yakutsk no ano de 1960. Entre a base dos edifícios e o nível do solo, existe um vão completamente livre, que foi projetado para permitir a circulação do ar frio e, assim, manter o solo devidamente congelado. As redes de tubulações que conduzem água, esgoto e o sistema de aquecimento também correm de forma aérea, acima da superfície, formando uma paisagem de canos que é visível em praticamente todas as ruas da cidade.

Um frio que obriga os motores a funcionarem o dia inteiro
A temperatura mais baixa já registrada oficialmente em Yakutsk foi de -64,4°C, no dia 5 de fevereiro de 1891. Mais recentemente, em janeiro de 2023, os termômetros da cidade marcaram -62,7°C, a menor temperatura em um período de duas décadas. A média das temperaturas durante o mês de janeiro costuma ficar em torno de -36,9°C. Existe um dado curioso: a cidade jamais registrou uma temperatura acima de zero grau no período que vai de 10 de novembro a 14 de março. Durante o rigoroso inverno, o sol aparece por menos de quatro horas por dia, e uma densa névoa de gelo, conhecida como ice fog, reduz a visibilidade a apenas alguns metros.
Os automóveis que são deixados ao ar livre precisam permanecer com o motor ligado por meses a fio. Se forem desligados, simplesmente não há como fazê-los funcionar novamente. As escolas da cidade só suspendem suas aulas quando os termômetros caem para marcas abaixo de -55°C. Peixes e carnes são comercializados em mercados que funcionam ao ar livre, onde o frio natural do ambiente substitui com grande eficiência qualquer tipo de refrigerador. A amplitude térmica anual da cidade pode chegar a impressionantes 102°C, uma das maiores variações desse tipo já registradas no planeta: o mesmo termômetro que é capaz de marcar -50°C no inverno pode, com facilidade, ultrapassar os 30°C positivos durante o verão.

Diamantes e mamutes que estão conservados sob a camada de gelo
A força da economia de Yakutsk está centrada na atividade de mineração. A região da Yakútia é responsável por algo em torno de um quinto de toda a produção mundial de diamantes, uma operação que é liderada pela gigante do setor, a empresa Alrosa. Mas as riquezas que estão guardadas no subsolo não param por aí: a região também possui grandes reservas de ouro, prata, gás natural e petróleo.
O permafrost também atua como um gigantesco freezer natural que é de grande valia para a ciência. O Museu do Mamute, que está vinculado à Universidade Federal do Nordeste (NEFU), exibe fósseis da Era do Gelo em um estado de conservação simplesmente impressionante, incluindo exemplares de mamutes-lanosos, bisões e cavalos pré-históricos. Já o chamado Reino do Permafrost, um complexo de galerias que foi escavado diretamente no solo congelado, funciona como um museu de esculturas de gelo que jamais derretem, uma vez que são mantidas pela temperatura estável e constante do subsolo.
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A ameaça que chega com o aquecimento do planeta
Os pesquisadores do Instituto Melnikov de Permafrost fazem um alerta preocupante: a temperatura média em Yakutsk já subiu 2,5°C ao longo da última década. Esse processo de aquecimento acelera o derretimento das camadas superiores do permafrost, o que acaba desestabilizando as fundações de prédios que foram originalmente projetados para se apoiarem em um solo que deveria estar permanentemente congelado. Não é raro encontrar edifícios da era soviética que já exibem rachaduras preocupantes e inclinações que podem chegar a até 40 centímetros.
Em junho do ano de 2020, um edifício residencial de dois andares simplesmente se partiu ao meio depois que o solo sob uma de suas estacas de sustentação descongelou. O próprio governo russo já fez uma estimativa de que o país poderá vir a enfrentar prejuízos que alcançam a cifra de 7 trilhões de rublos (algo em torno de 97 bilhões de dólares americanos) em danos à infraestrutura que está construída sobre o permafrost até o ano de 2050, conforme declarou o diretor do Instituto Melnikov. Diante desse cenário, a Rússia tem planos de instalar um total de 140 novas estações de monitoramento subterrâneo com o objetivo de acompanhar de perto a velocidade com que esse degelo está ocorrendo.
Quem sente curiosidade sobre como é a vida em lugares de clima tão extremo vai gostar deste vídeo do canal Ruhi Cenet Documentaries, que já foi visto por mais de 16 milhões de pessoas. Nele, o documentarista Ruhi Cenet mostra, de forma bastante detalhada, como é o dia a dia em Yakutsk, na Rússia, que é considerada a cidade mais fria de todo o mundo:
Conheça a cidade cuja existência depende da permanência do frio intenso
Yakutsk se apresenta como um caso absolutamente único no campo da engenharia urbana: uma verdadeira metrópole que não trava uma batalha contra o frio, mas que, pelo contrário, depende dele para conseguir se manter de pé. Cada estaca que foi cravada no permafrost, cada tubulação que corre exposta ao ar gelado e cada vão livre que se observa sob os prédios são lembretes constantes de que essa cidade só consegue se sustentar enquanto o solo sobre o qual foi erguida permanecer rigorosamente congelado.
Se você tem o interesse de compreender até onde vai a capacidade do ser humano de se adaptar aos ambientes mais extremos e desafiadores do nosso planeta, Yakutsk é o lugar onde essa resposta pode ser encontrada, estando ela, de forma muito literal, bem debaixo de seus pés.
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