
Mesmo nos últimos meses de vida, ele ainda contava os dias para a chegada das flores de cerejeira. O professor Yasuyuki Aono, da Universidade Metropolitana de Osaka, no Japão, dedicou sua carreira a reunir dados sobre as datas de floração na primavera no país, um dos registros climáticos sazonais mais longos do mundo. As informações são do The Guardian.
Utilizando fontes que remontam ao século 9, Aono revelou que as cerejeiras vêm florescendo cada vez mais cedo nas últimas décadas. Esse fenômeno se tornou um dos indicadores mais conhecidos das mudanças climáticas em andamento.
Planilha atualizada sobre as flores milenares
Em abril do ano passado, o pesquisador publicou em uma rede social a imagem de sua planilha atualizada. Ele havia acabado de registrar o pico de floração de 2025, ocorrido em 4 de abril, para a espécie que monitorava: a cerejeira-da-montanha (Prunus jamasakura). Logo abaixo, já estava marcada a linha para 2026, que nunca chegou a ser preenchida. Aono morreu em 5 de agosto, segundo colegas ouvidos pela imprensa internacional.

A ausência do cientista levantou preocupações na comunidade acadêmica. Isso porque seu trabalho reunia mais de 1.200 anos de observações, uma série histórica extremamente rara e valiosa.
Diante do risco de interrupção da série histórica, Acisu iniciou uma busca por alguém que pudesse dar continuidade às observações. O receio era que ninguém assumisse a tarefa, o que interromperia um dos mais longos registros ambientais já documentados.
A resposta veio rapidamente. Um pesquisador japonês se ofereceu para continuar o trabalho, mantendo o mesmo rigor metodológico. Ele afirmou que está consultando as mesmas fontes utilizadas por Aono e deve confirmar nos próximos dias a data de floração deste ano. Por enquanto, pediu anonimato até que o acordo seja formalizado.
A continuidade da pesquisa depende de um fator crucial: manter não apenas a mesma espécie monitorada, mas também o mesmo local de observação, Arashiyama, em Kyoto. Isso garante a consistência científica dos dados ao longo dos séculos.
A importância cultural da cerejeira-da-montanha
Embora existam outros projetos que acompanham a floração de cerejeiras no Japão, especialmente por causa da importância cultural e turística dos festivais, poucos focam na cerejeira-da-montanha. A maioria monitora outra espécie, a Somei-yoshino, cultivada apenas a partir do século 19.
O diferencial do trabalho de Aono está justamente na profundidade histórica. Seus registros permitiram identificar padrões claros de mudança ao longo do tempo. Entre as descobertas mais impactantes estão os anos de 2021 e 2023, que registraram as florações mais precoces de toda a série, nos dias 85 e 84 do ano, respectivamente.
Especialistas destacam a relevância do estudo. O dendrologista Toshio Katsuki afirmou que o trabalho é “extremamente importante” e que sua continuidade terá grande valor acadêmico.
Já o biólogo Richard Primack, da Universidade de Boston, lembra do encontro com Aono em 2006. Segundo ele, o cientista chegou a aprender formas antigas da língua japonesa para interpretar documentos históricos. Em arquivos antigos, encontrava referências a festivais de cerejeira em Kyoto e, a partir disso, conseguia estimar as datas de floração de cada ano.
O registro mais antigo identificado por Aono data de 812. Apesar de algumas lacunas ao longo dos séculos, a série oferece uma visão única sobre a relação entre clima e natureza.
Além das cerejeiras, cientistas identificam sinais das mudanças climáticas em diversas outras fontes, como anéis de árvores, sedimentos marinhos e até registros históricos de temperatura e umidade feitos por afinadores de órgãos em igrejas britânicas.
Pesquisas recentes também indicam impactos visíveis nas flores modernas. Em algumas regiões do sul do Japão, invernos mais amenos têm prejudicado o desenvolvimento das cerejeiras, resultando em flores com aparência menos vibrante. Em certos casos, botões chegam a cair antes mesmo de se abrir.
A continuidade do trabalho iniciado por Aono agora representa mais do que a preservação de um registro histórico. Trata-se de manter viva uma das evidências mais sensíveis e poéticas das transformações do clima no planeta.
