Grande descolamento dos mercados em maio de 2026

Maio de 2026 ficará marcado como um dos períodos de maior divergência entre os mercados globais e o mercado brasileiro desde a pandemia. Enquanto os principais índices norte-americanos renovaram máximas históricas impulsionados pela Inteligência Artificial, crescimento dos lucros corporativos e forte entrada de recursos em tecnologia, o Ibovespa registrou sua pior performance mensal em quase cinco anos, acumulando queda de 7,22%.

O movimento reflete uma mudança estrutural na alocação global de capital. Investidores internacionais reduziram exposição a mercados dependentes de commodities e aumentaram participação em empresas ligadas à infraestrutura de Inteligência Artificial, semicondutores, computação em nuvem e datacenters. O NASDAQ avançou 8% apenas em maio, enquanto o S&P 500 registrou sua oitava semana consecutiva de valorização.

A liderança desse movimento continua concentrada nas empresas que fornecem a infraestrutura necessária para a revolução da IA. Nvidia, Dell, HP, IBM e Supermicro apresentaram resultados operacionais robustos, reforçando a percepção de que o ciclo de investimentos em tecnologia permanece em estágio inicial e ainda possui capacidade de expansão nos próximos anos.

No Brasil, entretanto, a combinação entre inflação acima da meta, expectativas desancoradas, juros elevados e incertezas regulatórias ampliou o prêmio de risco exigido pelos investidores. Apesar do PIB surpreender positivamente no primeiro trimestre, o mercado interpretou o crescimento como potencialmente inflacionário, reduzindo as apostas em uma flexibilização monetária no curto prazo.

Além do cenário macroeconômico, o mercado doméstico passou a incorporar novos riscos institucionais e jurídicos decorrentes da decisão dos Estados Unidos de enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. O receio dos investidores concentra-se nos potenciais impactos sobre compliance, sistema financeiro, cadeias logísticas e custos operacionais de empresas que dependem do mercado internacional.

O fluxo estrangeiro permaneceu direcionado para mercados desenvolvidos, pressionando especialmente empresas ligadas a commodities. Petrobras foi impactada pela queda do petróleo após avanços diplomáticos envolvendo Estados Unidos e Irã. Vale também sofreu com a migração global de recursos para ativos tecnológicos, enquanto companhias domésticas enfrentaram desafios específicos, como a reestruturação da Raízen e as incertezas envolvendo a privatização da Copasa.

Para os investidores, o principal aprendizado de maio é que o mercado global continua premiando crescimento, inovação e produtividade, enquanto penaliza economias que apresentam deterioração de expectativas macroeconômicas e aumento do risco regulatório.

Diante desse cenário, a estratégia predominante continua sendo a diversificação internacional, proteção cambial parcial e seletividade na escolha de ativos domésticos, priorizando empresas com geração consistente de caixa, baixa alavancagem e capacidade de atravessar períodos prolongados de juros elevados.

O início de junho será decisivo. Dados de inflação, emprego e atividade econômica nos Estados Unidos e no Brasil poderão redefinir expectativas para juros, fluxo de capitais e valuation dos ativos de risco ao longo do segundo semestre de 2026.

*Coluna escrita por Francisco Alves, operador de mercado e apresentador do Pre-Market na BM&C News

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