
Maria Luiza Lopes Watanabe, ex-namorada de PC Siqueira, prestou um novo depoimento à polícia em março deste ano sobre a morte do youtuber. O documento ao qual o iG teve acesso, foi anexado à investigação após a ausência da jovem na reprodução simulada dos fatos realizada em janeiro no apartamento onde Paulo Cézar Goulart Siqueira foi encontrado morto, em São Paulo.
A defesa de Maria Luiza informou que ela não participou do procedimento por estar amamentando uma filha de três meses e residir no Rio de Janeiro. O novo depoimento foi prestado por videoconferência em 6 de março de 2026 e abordou o relacionamento entre os dois, além dos acontecimentos que antecederam a morte de Paulo.
Segundo seu relato, ela conheceu Paulo entre junho e julho de 2022 por meio de um aplicativo de relacionamentos. O primeiro encontro ocorreu em seu apartamento, localizado próximo à Avenida Paulista.
Maria afirmou que, logo no início, Paulo foi transparente sobre sua situação pessoal. Segundo ela, ele levou substâncias ilícitas para o encontro e falou sobre a acusação de pedofilia que enfrentava, além dos ataques que dizia sofrer por se declarar simpatizante do Partido dos Trabalhadores (PT).
Ela também relatou que o youtuber mencionava dificuldades financeiras e conflitos familiares. A partir desse contato, os dois passaram a conversar com frequência e a frequentar as casas um do outro.
Ainda de acordo com Maria Luiza, ela percebeu desde cedo que diversos móveis e objetos haviam desaparecido do apartamento de Paulo. Segundo o relato, ele teria explicado que vendeu parte dos bens para comprar álcool e drogas.
Ela afirmou ainda que Paulo já mencionava pensamentos suicidas desde o início do relacionamento, situação que lhe causava preocupação e ansiedade.
Posteriormente, Paulo teria pedido Maria em namoro. Antes de aceitar morar com ele, a jovem disse ter conversado com a mãe, Maria Inês, sobre a mudança. Segundo ela, o youtuber alegava sentir-se sozinho e dizia precisar de apoio emocional.
Na época, Maria afirmou que possuía estabilidade financeira graças a uma herança deixada pelo pai, vivendo em um apartamento de alto padrão e mantendo uma situação econômica confortável.
Com o passar do tempo, porém, ela disse ter passado a observar comportamentos considerados preocupantes. Segundo seu relato, Paulo se tornava agressivo durante episódios de uso de drogas e chegava a quebrar objetos dentro do apartamento.
Maria também afirmou que ele apresentava episódios de alucinação, relatando ouvir vozes de vizinhos falando sobre ele, embora ela estivesse presente e não ouvisse nada.
Em diversas ocasiões, segundo a ex-namorada, ela precisou deixar o trabalho para socorrê-lo durante crises emocionais. Também afirmou ter deixado o apartamento algumas vezes para preservar sua própria integridade física.
A versão sobre os últimos dias
Maria Luiza relatou que, na semana da morte de Paulo, sugeriu que o casal desse um tempo no relacionamento. Segundo ela, a proposta provocou uma reação negativa do youtuber, que não gostava de permanecer sozinho.
Por esse motivo, decidiu viajar para a casa da mãe, em Niterói, no Rio de Janeiro, no dia 23 de dezembro de 2023. De acordo com seu relato, a decisão foi tomada para preservar sua própria segurança.
Dias depois, contudo, retornou a São Paulo porque se sentia culpada por ter deixado Paulo sozinho.
Ao chegar ao apartamento, afirmou ter encontrado o imóvel desorganizado, com objetos espalhados e substâncias ilícitas, como cocaína, visíveis no ambiente.
Segundo Maria, como estava sem telefone celular, utilizou o aparelho de Paulo e encontrou conversas dele com outra mulher. Ela disse ter ficado com ciúmes e iniciado uma discussão. Paulo, por sua vez, teria afirmado que também havia encontrado mensagens dela com outros homens.
Após a discussão, Maria afirmou que decidiu dormir na sala.
O dia da morte
Segundo o depoimento, no dia da morte, em 27 de dezembro de 2023, Paulo ingeriu diversos comprimidos de Rivotril após dizer que Maria sentiria o mesmo sofrimento que ele estava enfrentando.

Ela relatou ter procurado ajuda de amigos próximos do youtuber. Utilizando um telefone de uma unidade da rede Oxxo, entrou em contato com Bruno Lobo, Carlos Eduardo e Patrícia para relatar a situação.
Maria afirmou ainda que Paulo repetiu diversas vezes a frase: “Maria, é hoje que eu vou me matar”.
Segundo ela, enquanto se preparava para levá-lo ao psiquiatra, o youtuber continuava afirmando que tiraria a própria vida.
A ex-namorada disse ter tentado acalmá-lo, mas que ele passou a montar uma espécie de forca utilizando uma barra de exercícios instalada na porta do quarto.
Diante da situação, entrou em contato com Carlos Eduardo pedindo ajuda. Segundo Maria, ele informou que estava com a filha e que iria ao apartamento posteriormente. Ela afirmou ter enviado a ele uma fotografia da estrutura montada por Paulo.
Também procurou Patrícia, amiga do youtuber. Segundo seu relato, chegou a passar o telefone para Paulo, que teria dito à amiga que Maria estava “viajando”.
Maria afirmou que, diante do estado emocional do namorado, passou a guardar objetos que considerava perigosos. Enquanto recolhia facas na cozinha, disse ter se virado e visto Paulo se lançar da cadeira.
Ela esclareceu que, embora o apartamento fosse integrado, havia uma divisão entre a cozinha e o local onde Paulo se encontrava, razão pela qual só percebeu o ocorrido naquele instante.
Segundo seu relato, não houve tempo para impedir a ação.
Ao perceber que Paulo estava pálido, ela afirmou ter entrado em desespero e saído do apartamento gritando por socorro.
Maria também declarou que não se recordava do número do Samu naquele momento.
De acordo com seu depoimento, a única pessoa que a auxiliou foi a vizinha Fabiana Borba Carvalho, responsável por iniciar os primeiros socorros e acionar o serviço de emergência.
Bens e acusações patrimoniais
Maria Luiza também negou ter retirado bens pertencentes a Paulo após sua morte.
Segundo ela, levou apenas uma caixa contendo documentos e maquiagens de sua propriedade. Os demais pertences permaneceram no apartamento.
A ex-namorada afirmou ainda que não conseguiu retornar ao imóvel porque a senha da fechadura eletrônica teria sido alterada pela família de Paulo após o ocorrido.
Ela também negou ter ingressado com qualquer ação para reconhecimento de união estável ou possuir interesse patrimonial relacionado ao youtuber.
Segundo Maria, Paulo enfrentava sérias dificuldades financeiras, o que afastaria qualquer motivação econômica para a manutenção do relacionamento.
O que disseram a mãe e uma amiga
A mãe de Maria Luiza, Maria Inês, também prestou depoimento por videoconferência.
Ela afirmou ter conhecido Paulo durante um jantar realizado na residência da filha para celebrar o início do relacionamento. Cerca de duas semanas depois, Maria passou a morar com ele.
Segundo Maria Inês, a filha nunca havia apresentado problemas relacionados ao consumo de álcool ou drogas antes do relacionamento.
Ela afirmou ter percebido mudanças comportamentais na jovem ao longo da convivência com Paulo.
A mãe relatou ainda que Maria se desfez de diversos bens materiais durante o relacionamento e que, após a morte do youtuber, passou a sofrer perseguições de pessoas próximas a ele.
Segundo seu depoimento, a filha frequentemente relatava crises emocionais envolvendo Paulo, nas quais ele quebrava objetos dentro do apartamento.
Maria Inês também negou que a filha tivesse qualquer interesse financeiro na relação. Segundo ela, Maria possuía imóveis herdados do pai no bairro de Icaraí, em Niterói, enquanto Paulo vivia em um “apartamento modesto” em Santo Amaro.
Thayanne Paes Carvalho, amiga de Maria Luiza há mais de 12 anos, também foi ouvida pela polícia.
Ela afirmou que conheceu Paulo após o início do relacionamento e o descreveu como uma pessoa solitária e isolada.
Segundo Thayanne, a relação inicialmente parecia saudável, mas se deteriorou ao longo do tempo.
A amiga relatou que Maria costumava procurá-la durante crises emocionais envolvendo Paulo, incluindo episódios em que ele dizia ouvir vozes de vizinhos.
Embora nunca tenha presenciado agressões físicas, afirmou ter ouvido, por telefone, discussões em que Paulo gritava enquanto Maria chorava.
Ela também relatou ter visto o apartamento com diversos objetos quebrados após algumas dessas crises.
Em uma ocasião, segundo Thayanne, Maria chegou a pedir abrigo por temer pela própria segurança. Como não estava em São Paulo, a amiga providenciou ajuda por meio de terceiros.
Ainda assim, afirmou que Maria demonstrava preocupação constante com a alimentação, os medicamentos e o bem-estar de Paulo.
Depoimento do síndico
O síndico do prédio, Marcelo de Almeida Ribeiro, também prestou depoimento à polícia.
Segundo ele, ao retornar ao edifício por volta das 17h50 do dia da morte de Paulo, encontrou duas viaturas do Samu estacionadas em frente ao local. Na entrada do prédio, foi informado por familiares da vizinha Fabiana Borba Carvalho de que um morador havia tentado tirar a própria vida e que ela estava no apartamento prestando socorro.
Marcelo então subiu até o imóvel e encontrou equipes médicas realizando manobras de reanimação em Paulo.
Posteriormente, dirigiu-se ao apartamento de Fabiana, onde Maria Luiza aguardava. Segundo o síndico, ela relatou que Paulo havia atentado contra a própria vida e que tentou socorrê-lo, mas não conseguiu impedir o desfecho.
Diante da situação, Marcelo afirmou que tentou obter o contato de algum familiar do youtuber para comunicar o ocorrido. De acordo com seu relato, Maria disse que estava sem celular e que possuía apenas uma caderneta com alguns números de telefone. Questionada sobre o aparelho de Paulo, teria respondido que não sabia onde estava e que o celular havia desaparecido.
Segundo o depoimento, Maria também afirmou que possuía apenas o contato de uma amiga de Paulo que morava no Rio de Janeiro.
Ao retornar ao apartamento do youtuber, Marcelo encontrou um homem que se identificou como Bruno Lobo. Questionado sobre sua presença no local, Bruno afirmou ser amigo de Paulo e disse que havia sido chamado por Maria para comparecer ao prédio.
O síndico afirmou ter estranhado a situação, já que, minutos antes, Maria havia informado que estava sem telefone. Por esse motivo, perguntou a Bruno de que forma ela havia conseguido entrar em contato com ele. Segundo Marcelo, Bruno não apresentou uma explicação clara e desconversou ao ser questionado.
Marcelo relatou ainda que Maria apareceu no local gritando e pedindo que as equipes de resgate salvassem Paulo. Segundo ele, os policiais orientaram que ela se afastasse para se acalmar. Bruno também teria sido orientado a deixar o apartamento.
Além dos acontecimentos do dia da morte, o síndico descreveu episódios anteriores envolvendo Paulo. Segundo seu depoimento, o youtuber relatava ouvir pessoas ameaçando-o, embora verificações realizadas no local não tenham encontrado evidências dessas situações.
Marcelo afirmou ainda que era comum ouvir discussões entre Paulo e Maria e relatou episódios em que o influenciador apresentava comportamento alterado, possivelmente relacionado ao uso de medicamentos ou drogas.
