Outro dia, num restaurante elegante, um desconhecido se levantou da própria mesa para me informar que eu deveria trocar o meu prato. Não havia pedido sua opinião. Sou um apreciador de sabores e estava perfeitamente satisfeito com a escolha — mas o homem insistiu, primeiro comigo, depois com o garçom, num crescendo de impaciência, como se a minha refeição fosse um erro que cabia a ele corrigir. Respondi o óbvio: o prato era meu, e eu o comeria como bem entendesse. Por curiosidade, depois fui consultar os manuais de etiqueta mais respeitados. Nenhum deles — nem os clássicos, nem os mais cerimoniosos — prevê a obrigação de trocar um prato para agradar a estranhos.
No domingo seguinte, pela manhã, um vizinho conhecido resolveu me bombardear de mensagens e memes em defesa de uma corrente política pela qual não tenho a menor afinidade. Passou quase a manhã inteira tentando me converter a uma causa que eu jamais havia mencionado, muito menos solicitado. E fiquei pensando: será que essa pessoa não tem nada melhor a fazer num domingo do que tentar reorganizar a cabeça alheia?
São cenas pequenas, quase cômicas. Somadas, porém, revelam algo maior — e é aqui que a pergunta deixa de ser “o que aconteceu?” e passa a ser “o que isso significa e para onde nos leva?”.
O que une o sujeito do restaurante e o vizinho dos memes é a mesma petulância: a convicção de que o outro existe para ser corrigido. Não se trata de mera falta de educação. É um traço de época. Vivemos num ambiente que premia a opinião e pune o silêncio. Repare numa conversa qualquer: o interlocutor já tem a resposta engatilhada antes mesmo de você terminar a frase. Quando não está formulando a réplica, está perdido no celular, com meia atenção aqui e a outra metade em outra tela. Quase ninguém escuta de fato; a maioria apenas aguarda a deixa para falar.
Há uma engenharia por trás disso. As plataformas que organizam boa parte da nossa vida social não são neutras: elas monetizam o engajamento, e engajamento é atrito, é reação, é o impulso de responder. O sistema recompensa quem opina, compartilha e rebate — não quem ouve, pondera e recua. A tecnologia que prometia nos conectar acabou nos transformando em pregadores de nós mesmos. Some-se a isso a ilusão de que existe “prova” para tudo: qualquer convicção, por mais frágil, encontra um link, um vídeo ou um número fora de contexto que a sustente. Munido dessa falsa certeza, cada um se sente autorizado a invadir o território do outro.
E é justamente um território que está em jogo. Venho de uma época em que a liberdade de pensamento era um valor franco: cada um tinha o direito de se manifestar, agir e pensar como bem entendesse, desde que não prejudicasse ninguém. Esse “desde que não prejudique o outro” era a fronteira civilizatória — simples e poderosa. Hoje, ela anda apagada. Da política à vida cotidiana, passando até pelas áreas mais técnicas, o objetivo deixou de ser convencer pelo argumento e passou a ser ocupar o espaço alheio: determinar, de forma arbitrária, como o outro deve pensar, votar, comer. A petulância é apenas a roupagem contemporânea de uma velha tentação — a de governar a consciência dos outros.
Para onde isso nos leva? Uma sociedade em que todos falam e ninguém ouve não delibera: apenas colide. O debate, que deveria ser o mecanismo mais sofisticado de uma democracia para refinar ideias, vira um ringue de monólogos simultâneos. Perde-se a capacidade de mudar de ideia, que talvez seja o sinal mais nobre da inteligência. E perde-se algo ainda mais elementar: o sossego, o direito de ser deixado em paz com as próprias escolhas — mesmo as discutíveis, mesmo as erradas. Porque a liberdade que só vale quando agrada aos vizinhos não é liberdade; é permissão.
O desafio, então, não é apenas manter a própria liberdade, mas preservá-la a todo custo — inclusive a liberdade de discordar em silêncio. Imagino como o debate seria mais rico se houvesse um “momento zero” antes de qualquer reação: o instante em que se ouve e se tenta entender a posição do outro, sem a pressa de corrigi-la. Talvez a pergunta que de fato importe não seja como vencer a discussão no restaurante ou no grupo de mensagens. Seja, antes, esta: quando foi que confundimos ter uma opinião com ter o direito de impô-la — e o que estamos dispostos a perder se seguirmos sem enxergar a diferença?
*Carlos Honorato é economista, PhD e mestre em Administração, especialista em estratégia, cenários econômicos e Scenario Planning. É CEO da OUTPOD e professor da FIA Business School e do Albert Einstein.
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