Como o mercado de capitais amplia as fontes de financiamento da economia brasileira

MERCADO DE CAPITAIS

O financiamento do crescimento econômico brasileiro passa por uma transformação estrutural. Durante décadas, o crédito bancário teve papel predominante na oferta de recursos para empresas e projetos produtivos. Agora, diante da necessidade de ampliar investimentos de longo prazo, modernizar a infraestrutura e sustentar a expansão empresarial, o mercado de capitais ganha espaço como uma das principais frentes de funding da economia.

Esse movimento não representa uma substituição do sistema bancário. Pelo contrário: mostra que uma economia mais complexa exige também um sistema de financiamento mais amplo, profundo e diversificado. Bancos, fundos, investidores institucionais, pessoas físicas, instrumentos de dívida privada e ofertas públicas passam a compor uma engrenagem mais sofisticada para conectar capital a empresas e projetos.

A mudança já aparece na composição do financiamento das empresas. Segundo dados citados pela ANBIMA, 33,6% dos recursos levantados por empresas não financeiras no país vêm do mercado de capitais, por meio de instrumentos de dívida. A parcela é ligeiramente superior à obtida por empréstimos bancários, de 33,3%. O dado reforça que o mercado deixou de ser apenas uma alternativa pontual e passou a ocupar papel estrutural no funding empresarial brasileiro.

O crédito ampliado ao setor não financeiro chegou a R$ 21,1 trilhões em abril de 2026, equivalente a 162,7% do PIB, segundo dados do Banco Central. Em 12 meses, houve crescimento de 11,1%, com destaque para os títulos privados de dívida, que avançaram 19,9% no período.

No recorte empresarial, o crédito ampliado às companhias atingiu R$ 7,1 trilhões em abril, ou 54,3% do PIB. Em 12 meses, o crescimento foi de 6,6%, impulsionado principalmente pela alta de 17,2% dos títulos de dívida.

Os números mostram que o financiamento corporativo no país já vai além das linhas tradicionais de crédito e passa a envolver um ecossistema maior de instrumentos.

Crédito bancário segue relevante, mas empresas buscam novas fontes: o papel do mercado de capitais nesse contexto

O estoque total de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,2 trilhões em abril de 2026, avanço de 9,3% em 12 meses. Desse total, R$ 2,7 trilhões estavam em operações com empresas e R$ 4,6 trilhões com famílias.

Os dados reforçam o peso ainda relevante do crédito bancário na economia brasileira. Ao mesmo tempo, indicam que empresas de diferentes portes, setores e ciclos de maturação passaram a buscar estruturas variadas de capital para financiar crescimento, inovação, expansão produtiva e projetos de longo prazo.

Em 2025, o Banco Central apontou que o financiamento das empresas no crédito livre arrefeceu, com parte da demanda migrando para o crédito direcionado e para o mercado de capitais. O crescimento real das concessões de crédito livre para pessoas jurídicas caiu de 13,1% em 2024 para 2,6% em 2025.

Nesse ambiente, a diversificação das fontes de funding passou a ter papel estratégico. Companhias combinam crédito bancário, emissões de dívida, fundos, securitização e instrumentos do mercado de capitais para alongar prazos, reduzir a dependência de uma única fonte e estruturar o capital conforme o perfil de cada projeto.

O crédito bancário segue relevante, mas já não atua sozinho. O financiamento do crescimento econômico, especialmente em projetos de longo prazo, exige um modelo híbrido, mais distribuído, que combine bancos, mercado de capitais e novos veículos de investimento.

Mercado de capitais bate recordes

O mercado de capitais brasileiro encerrou 2025 com recorde histórico de R$ 838,8 bilhões em ofertas públicas, alta de 6,4% em relação ao ano anterior, segundo a ANBIMA.

O avanço continuou em 2026. No primeiro quadrimestre, o mercado movimentou R$ 236,1 bilhões em ofertas, distribuídos em 918 operações. O resultado representou crescimento de 15,5% no volume financeiro e de 10,5% na quantidade de emissões em relação ao mesmo período do ano anterior.

No primeiro trimestre de 2026, o mercado movimentou R$ 180,1 bilhões em ofertas encerradas, o maior volume para o período desde o início da série histórica da entidade, em 2012. O resultado representou alta de 15,7% em relação ao mesmo intervalo de 2025 e foi distribuído em 689 operações, número 13% maior que no primeiro trimestre do ano anterior.

As debêntures somaram R$ 99,3 bilhões no período, em 153 operações. Embora o volume tenha recuado 4% frente ao primeiro trimestre de 2025, a quantidade de operações cresceu 20,5%, indicando maior pulverização das captações. As debêntures incentivadas responderam por 43,8% do volume total captado com debêntures, a maior proporção já registrada para o período.

Na avaliação de Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da ANBIMA, o avanço do mercado de capitais é uma resposta à necessidade de ampliar as fontes de financiamento da economia.

“O Brasil sempre precisa de capital e capital do longo prazo não especulativo, é o que a gente precisa”, afirmou Maranhão, em entrevista à BM&C News.

Segundo ele, 2026 marca uma mudança importante na estrutura de financiamento das companhias brasileiras.

“Acredito que 2026 é um marco importante, porque ele demonstra que o mercado de capitais ultrapassou o crédito bancário como fonte de financiamento para as companhias”, disse.

Debêntures, CRIs e CRAs ampliam funding corporativo

A evolução do mercado de capitais aparece também nos dados da B3. As emissões de produtos de dívida corporativa alcançaram R$ 647,5 bilhões em 2025, recorde histórico e alta de 6,5% sobre 2024.

Dentro desse volume, as debêntures somaram R$ 496,3 bilhões. As notas comerciais chegaram a R$ 54 bilhões, os CRAs somaram R$ 46 bilhões e os CRIs totalizaram R$ 50,8 bilhões.

O estoque de produtos de dívida corporativa na B3 chegou a R$ 2 trilhões em março de 2026, crescimento de 17% em relação a março de 2025. O estoque de debêntures alcançou R$ 1,52 trilhão, alta de 19% em um ano. Os CRIs somaram R$ 261 bilhões, enquanto os CRAs chegaram a R$ 176 bilhões.

Esses instrumentos cumprem uma função relevante ao conectar empresas e projetos a investidores. Debêntures, CRIs, CRAs, fundos, ofertas públicas e crédito privado permitem que diferentes setores encontrem estruturas de capital compatíveis com seus prazos, riscos e necessidades de investimento.

A diversificação também aparece no avanço dos FIDCs, que somaram R$ 90,8 bilhões em captação em 2025, segundo dados da ANBIMA. O crescimento reforça o papel da securitização como alternativa de financiamento para empresas de diferentes perfis.

Infraestrutura exige capital de longo prazo

No caso da infraestrutura, o papel do mercado de capitais é ainda mais relevante. Projetos de energia, saneamento, logística, transporte, inovação e expansão produtiva exigem recursos de longo prazo, volumes elevados de capital e ciclos longos de retorno.

Segundo dados da ANBIMA, as captações voltadas à infraestrutura já alcançam prazo médio de 13,5 anos. Esse alongamento é um dos principais diferenciais do mercado de capitais, especialmente em setores que demandam previsibilidade e financiamento compatível com o fluxo dos projetos.

Em ambientes de juros elevados, o mercado de capitais ganha protagonismo ao permitir que empresas alonguem prazos, acessem uma base mais ampla de investidores e estruturem operações mais eficientes. Ele não apenas complementa o crédito bancário, mas atua na reorganização do custo e do prazo do capital.

Esse movimento indica uma mudança estrutural. O mercado de capitais brasileiro passa de uma função de funding tático para uma função de financiamento de longo prazo, com impacto direto sobre infraestrutura, agronegócio, setor imobiliário, inovação e empresas de diferentes portes.

Fundos e investidores entram na engrenagem

O avanço do mercado de capitais também depende da ampliação da base de investidores e da capacidade de transformar poupança em financiamento produtivo. À medida que mais recursos passam a ser direcionados para instrumentos de renda fixa, crédito privado e produtos ligados ao mercado de capitais, cresce também o volume disponível para financiar empresas, infraestrutura e projetos de longo prazo.

Segundo a ANBIMA, o volume aplicado por pessoas físicas no Brasil chegou a R$ 8,5 trilhões em 2025, alta de 15,5% sobre dezembro de 2024. A renda fixa respondeu por 59% do total, com R$ 5,14 trilhões. Já os instrumentos com benefício fiscal, como CRAs, CRIs, LCIs, LCAs e debêntures incentivadas, somaram R$ 1,43 trilhão, também com alta de 15,5%.

Os fundos de investimento compraram R$ 289,8 bilhões em ativos gerados no mercado de capitais em 2024, o equivalente a 40,8% do total emitido. O valor representou alta de 160% em relação a 2023. Desse montante, R$ 209,9 bilhões foram alocados em debêntures corporativas e incentivadas.

Para Maranhão, a conexão entre a economia popular e o mercado de capitais pode ampliar a capacidade de crescimento do país.

“Quanto mais a gente conseguir fazer essa conexão da economia popular com o mercado de capitais, maior vai ser esse crescimento”, afirmou.

Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da ANBIMA, reforça que ainda há espaço para aproximar mais brasileiros do universo dos investimentos.

“Nem todo mundo que poupa investe no Brasil”, disse Billi.

Segundo ele, parte da população ainda se mantém distante dos investimentos por diferentes razões.

“As pessoas têm ainda um receio ou porque elas acham que têm pouco, ou porque elas acham que não é para elas, ou porque elas acham que elas precisam se preparar”, afirmou.

O que ainda precisa avançar

Apesar do crescimento recente, o aprofundamento do mercado de capitais ainda depende de avanços em diferentes frentes. Entre os principais desafios estão educação financeira, ampliação da base de investidores, liquidez no mercado secundário, segurança jurídica, previsibilidade regulatória, desenvolvimento de produtos, fortalecimento da governança e redução do Custo Brasil.

A ampliação da base de investidores é importante porque permite maior diversificação da demanda e pode contribuir para mais liquidez no mercado. A educação financeira também é parte desse processo, ao melhorar a tomada de decisão e aproximar mais brasileiros dos investimentos.

Outro ponto relevante é o arranjo institucional do mercado. Reguladores autônomos, coordenação entre autoridades, previsibilidade normativa e autorregulação contribuem para padronizar práticas, aumentar a transparência, proteger investidores e antecipar riscos.

A reforma tributária também entra nesse debate. Embora represente um avanço estrutural, o setor avalia que é necessário evitar a perpetuação de distorções, assimetrias e contenciosos que possam reduzir o potencial transformador da mudança.

Mercado de capitais como motor do crescimento econômico

O crescimento do mercado não depende apenas da criação de instrumentos financeiros. Ele exige confiança, informação adequada, regulação eficiente, estabilidade jurídica e capacidade de conectar investidores a projetos com diferentes perfis de risco e prazo.

Ao ampliar suas fontes de financiamento, o Brasil também amplia sua capacidade de crescimento. O desenvolvimento do mercado de capitais permite que empresas, investidores e projetos de longo prazo encontrem estruturas mais adequadas de capital, fortalecendo a conexão entre poupança, investimento e economia real.

Nesse processo, o mercado deixa de ser apenas um espaço de alocação financeira e passa a exercer um papel estratégico na construção de uma economia mais dinâmica, competitiva e preparada para crescer

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