Tok&Stok em recuperação judicial: entenda o que está por trás da dívida de R$ 1,12 bilhão

A Justiça de São Paulo autorizou o início do processo de recuperação judicial do Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly. Com uma dívida declarada de aproximadamente R$ 1,12 bilhão, a companhia entra agora em uma nova etapa de negociação com bancos, fornecedores e outros credores.

Embora a empresa tenha relacionado a crise aos juros elevados e à retração do consumo de bens duráveis, outros fatores deverão ocupar o centro das discussões durante o processo de recuperação judicial.

Na avaliação de Luís Gustavo de Paiva Leão, especialista em recuperação judicial e reestruturação de dívida bancária, sócio do escritório PL Advogados, a situação financeira do grupo envolve problemas de liquidez, elevado endividamento e questionamentos sobre a estrutura montada após a fusão entre Tok&Stok e Mobly.

Bloqueio de recebíveis afetou o caixa da Tok&Stok

Um dos principais pontos apresentados pela companhia é o bloqueio de aproximadamente R$ 77 milhões em recebíveis de cartão realizado por uma instituição financeira. Segundo o grupo, o montante retido seria superior ao valor do débito alegado pela credora.

Para Leão, o episódio indica que a falta de caixa, e não apenas a deterioração dos resultados operacionais, foi determinante para o pedido de recuperação judicial.

O especialista diferencia empresas que perdem gradualmente a capacidade de sustentar suas dívidas daquelas que enfrentam uma interrupção repentina no acesso aos próprios recursos.

“A meu ver, a proporcionalidade desse bloqueio é uma discussão tão relevante quanto o próprio plano de recuperação”, afirma Luís Gustavo de Paiva Leão.

Grupo passou por reestruturação em 2024

Outro ponto destacado pelo advogado é o fato de a Tok&Stok já ter passado por uma recuperação extrajudicial, homologada em novembro de 2024, antes da fusão com a Mobly.

A recuperação extrajudicial anterior não impede juridicamente o atual pedido. A restrição prevista na legislação se aplica às empresas que obtiveram a concessão de uma recuperação judicial nos cinco anos anteriores.

Apesar disso, Leão avalia que duas reestruturações em um período inferior a dois anos indicam que o endividamento não foi corrigido de forma definitiva. De acordo com informações atribuídas ao próprio CEO da companhia, a alavancagem chegou a 16 vezes o EBITDA após a operação envolvendo as empresas.

“É a mesma crise, com roupa nova”, resume o advogado ao analisar a estrutura financeira do grupo após a fusão.

Saída da SPX pode afetar negociação

A movimentação envolvendo a SPX Private Equity também deverá ser observada pelos credores. Um dia antes do protocolo da recuperação judicial, o mercado foi informado de que a gestora estava em fase avançada de negociação para vender sua participação na companhia.

A SPX havia se tornado acionista por meio da conversão de dívida, com deságio de 60%. Para Leão, a decisão de um investidor com acesso às informações internas de buscar a saída às vésperas do pedido poderá ser utilizada por credores para exigir condições mais rígidas durante a assembleia.

O especialista ressalta que a movimentação não representa, por si só, indício de irregularidade. No entanto, considera que o episódio poderá aumentar a desconfiança em relação à capacidade de execução do futuro plano de recuperação.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu uma apuração sobre a operação.

Plano deverá definir futuro do Grupo Toky

O deferimento do processamento não representa uma decisão sobre a viabilidade econômica da companhia. A medida apenas autoriza a abertura formal da recuperação judicial e estabelece o início das etapas previstas em lei.

O Grupo Toky terá até 60 dias para apresentar o plano de recuperação, documento que deverá detalhar as condições de pagamento, possíveis descontos, prazos, venda de ativos e alternativas para reorganizar a dívida.

Na avaliação de Leão, um novo aporte de capital seria menos provável diante do custo elevado do crédito. O caminho poderá envolver a conversão de parte das dívidas em participação acionária, modelo semelhante ao utilizado anteriormente com a SPX.

Entre os principais credores mencionados estão Banco do Brasil, Santander e Bradesco. A aceitação de uma eventual conversão dependerá das condições apresentadas e do nível de confiança das instituições financeiras na administração e na capacidade operacional do grupo.

As lojas permanecem abertas e os empregos foram mantidos durante o início do processo. Para o advogado, porém, o resultado da recuperação dependerá menos do ambiente macroeconômico e mais da capacidade do Grupo Toky de convencer os credores de que o novo plano resolverá os problemas financeiros que permaneceram após a reestruturação anterior.

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